BIO

Miranda cresceu sob a influência das filosofias e cosmologias do Candomblé. Não como referência estética ou repertório simbólico a ser citado — mas como eixo.

Na minha observação a escultura não se resume apenas à volume, assim como a luz e sombra o movimento é proimordial.

Antonio Miranda nasceu em 1968, em Pinheiral, no Vale do Paraíba — território dos Puris, povo indígena que habitou aquela região muito antes de qualquer mapa. Carrega também a herança de africanos que chegaram a essa mesma terra séculos depois, trazidos à força, depois enraizados. Das duas matrizes nasce um imaginário que não separa arte de espiritualidade, história de corpo, matéria de memória. Miranda cresceu sob a influência das filosofias e cosmologias do Candomblé. Não como referência estética ou repertório simbólico a ser citado — mas como eixo. A religião orienta gestos, determina modos de entender o tempo, a transformação e a presença das coisas no mundo. É essa base que faz de cada escultura algo mais do que objeto: uma entidade com história antes e depois de si.

Em 1994, muda-se para São Paulo. Trabalha durante alguns anos como assistente de Gruber, experiência que amadurece sua técnica pictórica e afia o pensamento plástico. A passagem deixa marcas no repertório formal — mas é a cidade, não o ateliê de outro, que vai definir sua linguagem própria. São Paulo oferece algo que nenhum estúdio oferece: uma oferta infinita, gratuita e imprevisível de matéria descartada. Miranda é um artista-catador. Caminha pelo centro com olhos calibrados para o que os outros pisam sem ver — madeiras expostas pela chuva, pedaços de móveis eviscerados na calçada, restos de tecidos, metais dobrados, plásticos opacos, embalagens de isopor que o vento ainda não levou. Tudo o que a cidade rejeita, ele escuta. Os objetos chegam ao ateliê com história estratificada — história de uso, abandono, erosão — e saem transformados: não reciclados, não decorados, mas reativados. Em suas mãos, o descarte torna-se matéria de presença.

O vocabulário que constrói com esse material é composto de ready-mades, fragmentos quebrados e estruturas reaproveitadas que se combinam, se destroem e se reorganizam sem parar. O que resulta oscila entre delicadeza e brutalidade, entre precariedade e monumentalidade — um equilíbrio tenso que não pende para nenhum dos lados. Suas peças habitam esse limiar: desconfortam e atraem ao mesmo tempo, como tudo que é verdadeiramente vivo.

Teias, gorduras, peles, ossos, membros e pés entrelaçados formam corpos híbridos que povoam o ateliê por anos a fio. Até que o artista os desfaz.

Ou os modifica. Ou os incorpora em obras concluídas décadas antes. Nada parece definitivo em sua prática: cada peça existe em estado de transformação contínua, como organismo submetido à ação acumulada do tempo, da memória e do desejo. Esse processo incessante não é falta de resolução — é método. A impermanência é a forma.